Estudo encontrou associação entre uso de agonistas de GLP-1 e menor registro de dor e fadiga, mas ainda não há evidências para recomendar medicamentos como o Mounjaro no tratamento da fibromialgia
Medicamentos utilizados no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade podem ter efeitos que vão além do controle metabólico. Para o Dr. Marcelo Valadares, neurocirurgião responsável pela área de Neurocirurgia Funcional da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e especialista no tratamento da dor crônica, uma nova pesquisa sobre agonistas de GLP-1 e fibromialgia abre uma frente de investigação sobre os possíveis efeitos dessa classe de medicamentos, mas ainda está longe de justificar o uso como tratamento da doença.
O estudo, publicado em 2026 na revista científica Rheumatology¹, com base em dados de mais de 96 mil pessoas com fibromialgia na plataforma TriNetX, encontrou uma associação entre o uso de agonistas do receptor de GLP-1 e menor registro de dor e fadiga, além de uma redução no uso de opioides entre os pacientes fibromiálgicos que utilizaram agonistas de GLP-1.
Os resultados têm despertado interesse porque essa classe de medicamentos ganhou grande projeção nos últimos anos. No entanto, segundo o especialista, é preciso cautela na interpretação dos achados. “É um resultado interessante, mas ainda estamos diante de uma evidência exploratória, que não permite afirmar que os medicamentos tenham causado a melhora dos sintomas. Por isso, o uso dos agonistas do receptor de GLP-1 não deve ser transformado em recomendação de tratamento”, ressalta o médico.
Os próprios autores destacam a necessidade de novas pesquisas, especialmente estudos clínicos desenhados para investigar diretamente o impacto desses medicamentos sobre a fibromialgia.
O trabalho publicado na Rheumatology investigou o uso de agonistas do receptor de GLP-1 como grupo terapêutico. Portanto, os resultados não permitem concluir que medicamentos específicos, como o Mounjaro, cujo princípio ativo é a tirzepatida, ou o Wegovy, à base de semaglutida, tenham efeito comprovado sobre a dor ou outros sintomas da fibromialgia.
Saúde metabólica pode influenciar a dor?
Ainda não está claro por que os pacientes que utilizavam agonistas de GLP-1 apresentaram menor registro de alguns sintomas.
Uma das hipóteses consideradas pelos pesquisadores é que parte desse resultado esteja relacionada à melhora da saúde metabólica e à redução do peso em pessoas com obesidade. Nesse caso, a redução da dor e da fadiga poderia ocorrer de forma indireta, como consequência de fatores associados à perda de peso, à melhora do sono, da mobilidade e de outras condições metabólicas, e não por uma ação específica do medicamento sobre a fibromialgia.
Outra possibilidade é que medicamentos que atuam na via do GLP-1 atuem sobre processos inflamatórios e mecanismos do sistema nervoso envolvidos na modulação da dor. Essa hipótese implicaria uma ação sobre processos biológicos envolvidos na fibromialgia, mas ainda não foi demonstrada clinicamente.
“A fibromialgia é uma condição complexa e não pode ser explicada por uma única alteração metabólica ou inflamatória. Em alguns pacientes, melhorar aspectos como peso, sono, mobilidade e saúde metabólica pode contribuir para uma melhora global dos sintomas, mas isso é diferente de afirmar que esses medicamentos atuam diretamente sobre os mecanismos da fibromialgia. Por isso, qualquer novo possível tratamento precisa ser estudado especificamente nessa população”, diz o Dr. Valadares.
Como tratar a fibromialgia?
Enquanto essas respostas não chegam, o neurocirurgião reforça que indivíduos com fibromialgia não devem iniciar o medicamento com a expectativa de tratar a doença. “O tratamento da fibromialgia é individualizado e costuma combinar medidas não medicamentosas e, quando necessário, uso de medicamentos”, explica o médico.
Exercício físico estruturado e progressivo, melhora da qualidade do sono, fisioterapia e estratégias para manejo do estresse podem ajudar a reduzir o impacto da dor e da fadiga e a melhorar a funcionalidade no dia a dia.
Em alguns casos, o tratamento pode incluir medicamentos voltados ao controle de diferentes manifestações da fibromialgia, como dor difusa e fadiga. Entre as opções utilizadas estão medicamentos que atuam sobre a modulação da dor no sistema nervoso, como duloxetina, pregabalina e, em determinadas situações, amitriptilina, sempre conforme a avaliação clínica e o perfil do paciente.
A escolha do tratamento depende da intensidade e do tipo de sintomas, da presença de outras condições de saúde, da tolerância aos medicamentos e da resposta obtida ao longo do acompanhamento. “Como a fibromialgia é uma síndrome complexa e heterogênea, o tratamento costuma ser ajustado progressivamente, combinando intervenções com o objetivo de reduzir a dor, melhorar o sono, preservar a funcionalidade e aumentar a qualidade de vida do paciente”, conclui o especialista.
Referência científica:
Eshak N, Irani A, Sullivan M. Exploring the effects of GLP-1 receptor agonists in fibromyalgia: a propensity-matched real-world cohort using the TriNetX research platform. Rheumatology. 2026;65(2):keag033. DOI: 10.1093/rheumatology/keag033.
Sobre o Dr. Marcelo Valadares:
Dr. Marcelo Valadares é neurocirurgião funcional, com atuação nas áreas de neuromodulação, distúrbios do movimento e tratamento da dor. Integra o corpo clínico do Einstein Hospital Israelita e é médico responsável pela área de Neurocirurgia Funcional da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde também participa da formação de médicos residentes em Neurocirurgia.
É coordenador da pós-graduação em Neuromodulação do Einstein e atua na formação de médicos e especialistas em técnicas de neuromodulação, incluindo estimulação cerebral profunda (DBS) e estimulação medular.
Ao longo de sua trajetória, ministrou cursos nessas áreas para mais de 200 médicos no Brasil e na América Latina.
Graduado em Medicina pela Unicamp, possui título de especialista em Neurocirurgia pela Unicamp/AMB e mestrado em Neurologia pela mesma instituição. Possui formação complementar em pesquisa clínica pela Harvard Medical School e é membro da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN), da International Neuromodulation Society (INS) e da Movement Disorder Society (MDS).
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